ONGs e protetores independentes não têm a obrigação de fazer o trabalho do poder público e da população!

Regina Pereira

Todos os dias recebemos dezenas de e-mails e mensagens com pedidos de ajuda de pessoas que encontraram animais na rua, no lixo, ninhadas abandonadas na porta das casas, animais que foram atropelados, tutores que irão mudar de casa e querem se desfazer do animal, alegando mil desculpas. Outros nos pedem ajuda para tratamento veterinário, fora as inúmeras denúncias de maus-tratos. E além de tudo isso, ainda temos que lidar com os “criadores clandestinos”, as “fábricas de filhotes”, onde animais são explorados, usados, e depois quando “não servem” mais, quando param de dar lucro, são descartados, jogados fora como lixo! Filhotes fofinhos e bonitinhos que você compra são frutos de maus-tratos, exploração e negligência desse comércio hediondo.

É muito raro quando alguém nos pede informações de como proceder em alguns casos, e ficamos felizes em orientá-los nesse trabalho, que deve ser de todos, população, poder público, porque nós, sinceramente, não temos estrutura para dar conta nem de um décimo desses pedidos.

De acordo com os últimos números divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 30 milhões de animais estão abandonados só no Brasil. São aproximadamente 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães.

As pessoas passaram a achar que as Associações de Proteção Animal têm a responsabilidade e obrigação de recolher esses animais, sendo que deveria ser apenas um apoio e não um refúgio.

As pessoas nos perguntam assim: “se vocês não podem resgatar, pra onde podemos levar então?”. Não existe um lugar para onde vocês possam levar, isso no nosso país simplesmente não existe, com exceção de raríssimas prefeituras que tentam manter um programa razoavelmente decente de castração e adoção, não existe uma estrutura de abrigos públicos. O que existe aqui são indivíduos, ou grupos de indivíduos, que fazem das tripas coração para conseguir amenizar esse problema gigantesco, o descaso, desrespeito, abandono, maus-tratos e superpopulação de animais. Atenção para a palavra amenizar, porque solucionar, isso não acontecerá nunca, por mais animais que sejam resgatados. Não existem políticas rígidas de castração, as leis não são aplicadas. O poder público não disponibiliza um lugar salubre, adequado e equipado para acolher todos esses animais, nem profissionais preparados para isso, e tampouco está disposto a ajudar as iniciativas privadas nesse sentido. E principalmente, não existem lares para todos esses animais, as taxas de natalidade e abandono são infinitamente maiores do que qualquer taxa de resgate e adoção.

Alguns poucos grupos ainda se arriscam a manter abrigos, que estão sempre na sua capacidade mais do que máxima. Os abrigos para animais não representam a melhor opção para a solução do problema. Superlotados, não conseguem suprir todas as necessidades do animal, que além dos cuidados físicos requer atenção por parte do homem.

A maior parte dos protetores, no entanto, sejam eles independentes ou ONGs, acomoda os animais da maneira que dá no pouco espaço que tem, e manter esses animais com um mínimo de dignidade nessas condições é uma luta.

Os animais chegam na sua maioria mutilados, famintos, doentes, espancados, debilitados, cheios de medos e traumas. Nesse caso, ter alimento, abrigo, cuidados e medicamentos, significa a diferença entre a vida e a morte.

Quando um animal vai para o abrigo, ele fica à espera de alguém que o adote, o que nem sempre acontece.

Não existe milagre. Não damos conta de realizar o trabalho que deveria ser de toda a sociedade, a começar com a educação e conscientização da mesma. Não é justo cobrar exclusivamente dos grupos de proteção animal o que deveria ser também responsabilidade do poder público, e de consciência da população. Protetores são pessoas como você, com problemas no trabalho, problemas pessoais, problemas de saúde, dificuldade para pagar as contas, também moram em casas pequenas, mas mesmo assim, se voluntariam, por amor aos animais. Eles não só não recebem nada por isso, mas pagam um alto preço, e ainda tem que viver com a incompreensão e críticas da maioria das pessoas que os cercam, inclusive (ou principalmente) de familiares, e o pior, viver com a sensação permanente de impotência, a realização de que não importa o quanto se faça, nunca será o suficiente.

ONGs e protetores independentes não recebem um bom salário como a maioria dos ambientalistas profissionais, não dispõem de financiamento público e muito menos recebem “emenda de parlamentares”. Todos os gastos de alimentação, veterinário, higiene, vacinas, são custeados através de doações, vaquinhas, rifas, bazares e apelos na internet. 

O trabalho é feito com muito sacrifício, mas com muito amor, dedicação e respeito pela vida, onde o “amor de bicho não tem preço”.

E apesar disso, continuam fazendo o que dá. Por pouco que seja, fazem a parte deles! Faça você também a sua!

Imagem: Divulgação