‘Não se trabalha mais com a hipótese de erradicação da dengue’

Foto: Mauricio Bazilio/SES

Mayara Nascimento

No ano passado o Brasil todo registrou um aumento nos casos de dengue. Em Guarulhos, foram contabilizados 6.469 casos de janeiro a dezembro de 2019, com uma morte em setembro. Em 2018 foram apenas 94 casos observados na cidade, sem nenhum óbito.

O mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue, também é o agente causador da chikungunya e do zika vírus. A doença é uma preocupação internacional e está listada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para explicar o aumento de casos no último ano, a Folha Metropolitana conversou com o médico especialista Alexandre Chieppe. Graduado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1997), ex-subsecretário Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (2015 a 2019) e ex-superintendente de Vigilância da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, atualmente, Chieppe é diretor Médico da MedLevensohn.

Abaixo os principais pontos desta entrevista que pode ser conferida na íntegra no site www.fmetropolitana.com.br.

Folha Metropolitana – Qual é o procedimento para identificar e tratar a dengue?
Alexandre Chieppe – A pessoa deve procurar um serviço de saúde assim que começarem os sintomas. A dengue pode se confundir com diversas doenças infecciosas, como febre maculosa, meningite, chikungunya, entre outros. A dengue traz sintomas graves e é preciso intervir cedo. Há um volume adequado de hidratação, feito através de um cálculo, que somente um médico pode fazer, além de exames laboratoriais. Sozinha, a pessoa não consegue identificar e tratar adequadamente.

Qual o ciclo da larva?

A dengue é uma arbovirose, que são transmitidas por mosquitos. O processo se dá através de um mosquito fêmea que pica um ser humano.

No ano passado Guarulhos registrou 52% dos casos em mulheres e 48% no sexo masculino. Mulheres, homens e crianças, estão todos suscetíveis a contrair a doença ou existem sexo e faixa etária mais propensa?

Quem nunca teve contato está suscetível igual. Temos uma parte da população de maior risco de contração, que são as crianças e os idosos, pois o que preocupa é o risco de complicação da doença, que pode levar a hemorragia e a morte. Hoje chamamos de dengue grave, antigamente era chamada de dengue hemorrágica, que causa desidratação consequente ao processo da doença.

O último boom de dengue foi em 2015. Por que no ano passado tivemos altos números, mesmo com poucas chuvas?

Temos quatro tipos de vírus e a pessoa pode ficar doente quatro vezes, pois cada ser humano fica imune depois que pega. Geralmente os vírus se intercalam, agora estamos com o vírus 2, que substituiu o vírus 4 e 1, que foram os principais agentes causadores de 2015. Uma parte importante da população não tem proteção contra o vírus 2, por isso sentimos o aumento de casos.


Por que ainda há tantos casos mesmo com diversas campanhas e ações de combate? A culpa é da população ou do poder público?

O mosquito é altamente adaptável e todos precisamos trabalhar a eliminação mecânica de vetor, ou seja, utilizar inseticidas, larvicidas, eliminar criadouros e água parada. O grande desafio é intensificar os cuidados neste verão. Cada um deve cuidar da sua casa, não podemos deixar a responsabilidade apenas para o poder público, eles são apenas auxiliares. De qualquer forma todos são responsáveis.

O vírus pode evoluir e se tornar mais forte com os anos?

É possível. O processo de mutação do vírus está sempre acontecendo. Hoje não podemos afirmar que haja outros tipos, mas no futuro pode ser que tenha.

Como estão as pesquisas na área?

Temos uma vacina que já está sendo comercializada, mas há algumas limitações, por exemplo, ela é indicada apenas para pessoas que já tiveram dengue. O Brasil está em desenvolvimento de outra vacina e a expectativa é que os estudos fiquem prontos em dois anos.

Os casos se concentram no Brasil ou outros países também estão lutando contra a dengue?

A dengue cresce em todo o mundo, não só no Brasil. Nós temos que fazer nosso papel e cuidar da nossa casa, e evitar que nosso ambiente seja um criadouro.

Por que alguns remédios são contraindicados?

Alguns medicamente como anti-inflamatórios, ácido acetilsalicílico (AAS), como por exemplo, a aspirina, e alguns outros remédios para pessoas com problemas cardíacos não devem ser tomados em caso de suspeita de dengue. Isso porque esses remédios são anticoagulantes e aumentam o risco de sangramento, inclusive de hemorragia.

Nos próximos anos será possível erradicar a dengue?

Não se trabalha mais com a hipótese de erradicação. É um pensamento que deve voltar apenas quando tivermos tecnologias mais avançadas.

Imagem: Divulgação