Idoso de 70 anos volta a estudar e consegue bolsa integral em Ciência da Computação

Lucy Tamborino

O idoso Joselito Ramos de Oliveira, de 70 anos, parou de estudar no Ensino Fundamental. Perto de se aposentar decidiu voltar a sala de aula e conseguiu uma bolsa integral no Programa Universidade para Todos (Prouni) por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  “Eu nunca esperava que assimilaria tão bem para conseguir uma nota para uma bolsa integral”, desabafa.

Oliveira, que se matriculou em Ciência da Computação na Univeritas/UNG, no segundo semestre do ano passado, já tem planos para quando terminar o curso: abrir seu próprio negócio – uma consultoria de empresa. “A gente pode ir além das possibilidades. Olhe para você e fale eu posso, eu quero e consigo”, incentiva.

Além dele, outros cinco alunos da Escola Estadual Pimentas VII conseguiram ser aprovados em universidades, sendo públicas ou bolsa integral em particulares por meio do Prouni.

Não foi só ele que ficou surpreso em passar em uma universidade logo na primeira vez que prestou o Enem. Geovana Elen da Silva, de 18 anos, aprovada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Santa Maria, teve a mesma sensação. “Sempre colocaram na minha cabeça que eu ia ficar anos estudando”, conta.

Renan Pires Gonçalves, aprovado em Psicologia pela mesma universidade, analisa que é comum esse sentimento de desacreditar em alunos de escola pública. “Eu percebi que muitos dos meus colegas têm potencial para se desenvolver como pessoa e estudante, mas por fatores psicológicos e por contextos familiares muitas vezes isso não acontece. É difícil ter uma inspiração ao redor”, explica.

Já Maria Eduarda Santos da Silva, de 17 anos, foi aprovada pelo Prouni em Enfermagem na Universidade Paulista (Unip) e Larissa Diniz, de 18 anos, em Educação Física.

Uma nova escola

Ao decorrer de todo o ano passado a Escola Estadual Pimentas VII, desenvolveu diversos projetos para atrair os alunos e torna-los protagonistas, como por exemplo, o mês da mulher, discussões a cerca de temas como o feminismo, incentivo a sonhos e autoestima, além de um trabalho de conclusão de curso (TCC).

“Nada foi sugerido pelos professores, os temas dos TCCs foram sugestões dos próprios alunos”, conta o professor de português Antonio Carlos Rodrigues dos Santos, explicando que os assuntos propostos estavam relacionados com a própria vivência dos estudantes.  

O ano letivo da escola foi planejado após a constatação de obstáculos no ensino. “As provas externas apontavam que tínhamos problema com fluxo, os alunos desistiam de estudar. Foi aí que nós pensamos que precisávamos de uma escola mais atrativa e desenvolvemos os projetos”, conta Marisa de Sá, diretora da instituição.

A opinião de uma escola diferente é compartilhada por Gustavo Leôncio Perreira, de 18 anos, aprovado com bolsa de 100% em Psicologia, na Universidade Cruzeiro do Sul. “A gente tinha prazer de estudar e estar aqui, não só pelo vestibular ou pelo grêmio. A escola é um espaço nosso que deve ser ocupado, assim como a faculdade pública e privada”, aponta.

Diego de Freitas, professor de filosofia no ano passado e atual coordenador conta que os alunos abraçaram os projetos. “Desengessou a questão de hierárquica de professor e aluno sem perder o respeito. O aluno precisa ter a noção de pertencimento”, destaca.

Imagem: Lucy Tamborino