Há 30 anos, ‘Uma Linda Mulher’ chegava aos cinemas para fazer história

Em julho, serão comemorados os 30 anos do lançamento de Uma Linda Mulher. O longa de Garry Marshall estrelado por Julia Roberts e Richard Gere é mais em muita coisa. Permanece como a comédia romântica de maior bilheteria de todos os tempos (US$ 463 milhões), a de maior público nas salas (mais de 42 milhões de espectadores). Mais, mais. Mas foi um longo caminho para se chegar a esse resultado.

Qualquer espectador da Sessão da Tarde conhece a história – um empresário especializado em sucatear empresas que depois vende pelo maior lucro contrata prostituta para ser sua acompanhante por uma semana. Ele a tira da rua, Rodeo Drive, dá-lhe um banho de butique nas grifes mais chiques de Los Angeles e, como Pigmalião diante de Galasteia, apaixona-se por sua criação. Alguém aí não sabe como termina essa história? É pouco provável. Uma Linda Mulher é mais que simplesmente um filme. Virou referência – ícone? – da cultura pop. É citado até em estudos acadêmicos sobre a mobilidade social.

Mas poderia ter dado tudo errado. Inicialmente, era para ser um drama sombrio, meio documentário, sobre uma prostituta drogada. Como projeto, o título era U$ 3 mil, que é o valor que Vivian Ward cobra para acompanhar Edward Lewis por uma semana. O roteiro original incluía uma cena de Vivian envolvendo-se numa disputa pesada com seu fornecedor. O então presidente da Disney, Jeffrey Katzenberger – a empresa produtora era uma subsidiária, a Touchstone -, não estava gostando de nada daquilo. Deu o ultimato – exigiu que a história sórdida fosse transformada em conto de fadas moderno.

Parte dessa zona sombria da prostituição aparece, bastante atenuada, na personagem da amiga de Vivian. A primeira escolha para o papel da protagonista foi Karen Allen. Quando Garry Marshall assumiu o comando, a escolha mudou para Mary Steenburgen. Não deu certo. Winona Ryder e Jennifer Connelly foram testadas, mas não serviram porque pareciam muito jovens.

Na sequência, boa parte das estrelas de Hollywwod leu o roteiro e declinou – Meg Ryan não aprovou, Michelle Pfeiffer quis mudar ‘algumas’ coisas. Jennifer Jason Leigh estava quase sendo contratada quando começou a questionar o sexismo da produção. Julia Roberts terminou escolhida aos 45 do segundo tempo. Venceu mais pela desistência das outras que pelo próprio nome, embora já tivesse a credencial do Globo de Ouro de coadjuvante que recebeu por Flores de Aço/Steel Magnolies, de 1989.

Para protagonista masculino, chegaram a ser considerados Christopher Reeve, Daniel Day-Lewis e Denzel Washington. Al Pacino, ao que se consta, fez uma leitura do papel com Julia e recusou. Richard Gere topou, mas teve alguma dificuldade no começo. Por ser um astro, estava querendo aparecer demais. Ele próprio confirmou, e não sem humor, que o diretor chamou-o de lado e lhe disse que o filme era sobre uma pessoa que se movia e outra, não. E Marshall teria perguntado – “Adivinhe qual das duas você é?”

Anos depois, Julia fez um filme (bom) chamado O Sorriso de Mona Lisa, com direção de Mike Newell. Esse aqui poderia ser O Sorriso de Vivian. Numa cena-chave, Vivian está deitada no chão e assiste pela TV a um episódio do velho seriado, I Love Lucy. É parte da lenda – a atriz não ria como o diretor estava querendo. Fora de campo, o próprio Marshall lhe fazia cócegas nos pés, até vir a estrondosa gargalhada. O público se apaixonou, os críticos colocaram-na nas nuvens. Julia foi indicada para o Oscar, ganhou o Globo de Ouro. Virou estrela.

Como outros filmes que, ao longo da história, tiveram os elencos mudados – O Intrépido General Custer, de Raoul Walsh, Casablanca, de Michael Curtiz -, muita gente acha que os deuses do cinema interferiram para que tudo desse certo. Além da química da dupla principal, a trilha contribuiu. Quando Edward e Vivian vão à ópera, é para ver La Traviata. Oh, Pretty Woman segue a ‘princesa’ na voz de Roy Orbison. Natalie Cole canta, sugestivamente, Wild Women Do. E a banda Roxette estourou em todo o mundo graças a uma faixa, It Must Have Been Love.

Claro que tinha de ser amor. De que outra maneira o relato chegaria ao seu happy end? Só falta revelar o segredo de Polichinelo. Por mais bela que fosse a jovem Julia, não foi suficiente. Na cena da lingerie, no começo, e no cartaz, o corpo de Vivian não é o dela. Julia foi ‘dublada’ por Shelley Michelle Tão grande foi o sucesso que, por quase dez anos, a indústria tentou repetir o fenômeno. Depois de muita procura, o diretor, o astro e a agora estrela encontraram o que acharam que fosse o material certo. Alguma coisa ficou faltando, porque Noiva em Fuga, de 1999, por mais charme que tenha, ficou abaixo da expectativa, em todos os sentidos.