Fundação Bienal de São Paulo realiza exposição coletiva no Pavilhão Ciccillo Matarazzo

Acompanhando o calendário de reabertura das instituições culturais da cidade de São Paulo, a Fundação Bienal apresenta a mostra Vento de 14 de novembro a 13 de dezembro de 2020 no Pavilhão Ciccillo Matarazzo como parte da programação da 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto. No dia 13 de novembro, às 18h, uma performance de Paulo Nazareth no edifício fechado (sem público presencial), que poderá ser acompanhada pelo público ao vivo pelo Instagram da Bienal, marca a abertura da exposição. Para a mostra, a Fundação Bienal está seguindo rigorosamente os protocolos sanitários estabelecidos para o setor cultural e a visitação se dará mediante agendamento.

Concebida a partir de conceitos como o de “relação”, a 34ª Bienal de São Paulo adotou uma estrutura de funcionamento inovadora, expandindo-se no espaço (por meio da parceria com instituições culturais da cidade e do exterior) e no tempo (com a realização de mostras e ações apresentadas no Pavilhão da Bienal a partir de fevereiro de 2020). Embora a agenda de exposições individuais tenha sido interrompida com a chegada da pandemia de Covid-19 e a dinâmica da rede de instituições parceiras também tenha sido adaptada de acordo com o calendário expositivo de cada um desses espaços, os preceitos norteadores desta edição se mantiveram os mesmos.

Com o adiamento da exposição coletiva para 2021, a 34ª Bienal se estendeu ainda mais no tempo e incorporou o espaço desmaterializado da internet como palco de uma série de ações inéditas que ampliaram seu programa inicial. Assim como aconteceu com sua extensa programação digital, a apresentação de Vento sinaliza um ajuste de rumo – não uma interrupção ou o início de um novo movimento – do projeto curatorial inicial desta edição. Enquanto responde a mudanças vividas pela sociedade como um todo, este ajuste é condizente com um projeto que desde seu início se propôs a mostrar-se acessível à reflexão pública, encarando-se como um ensaio aberto.

Jacopo Crivelli Visconti, curador geral da 34ª Bienal de São Paulo, explica que “Vento funciona como o índice desta edição da Bienal, no sentido de que aponta alguns dos temas que voltarão expandidos na exposição de setembro do ano que vem, e ao mesmo tempo se refere ao que já aconteceu, assim como o índice constitui, em semiótica, o rastro”. O curador adjunto Paulo Miyada complementa: “O projeto desta Bienal sempre teve a intenção de mostrar as mesmas obras mais de uma vez, em contextos e momentos distintos, para enfatizar que nada permanece idêntico, nem as obras de arte, nem o público, nem o mundo ao redor. Este movimento começa a se concretizar com esta exposição, ganha força com as mostras da rede que passam a ser apresentadas a partir de agora e deságua em setembro do ano que vem”.

Para José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, “a Bienal desempenha um papel muito significativo na vida cultural da cidade. Durante o período de isolamento social mais acentuado, nós intensificamos e diversificamos nossa programação digital, por acreditarmos que o contato com a arte é essencial para a sociedade, em especial em momentos de crise. Agora, realizamos esta exposição e reabrimos o Pavilhão com o mesmo intuito – o de criar oportunidades para que estejamos juntos, de uma maneira segura, ao redor de obras de arte que podem nos ajudar a processar, individual e coletivamente, o momento único que estamos vivendo”.

Figuram em Vento 21 artistas, sendo 10 nomes divulgados agora são: Alice Shintani (1971, São Paulo, SP), Ana Adamović (1974, Belgrado, Sérvia), Eleonore Koch (1926 – 2018, Berlim, Alemanha), Gala Porras-Kim (1984, Bogotá, Colômbia), Jacqueline Nova (1935-1975, Gante, Bélgica), Koki Tanaka (1975, Kyoto, Japão), Luisa Cunha (1949, Lisboa, Portugal), Melvin Moti (1977, Roterdão, Países Baixos), Musa Michelle Mattiuzzi (1983, São Paulo, SP) e Paulo Nazareth (muitas datas, Watu Nak, Vale do Rio Doce, MG).

Os 11 participantes de Vento já anunciados como artistas da 34ª Bienal são: Antonio Dias (1944, Campina Grande, PB), Clara Ianni (1987, São Paulo, SP), Deana Lawson (1979, Nova York, EUA), Edurne Rubio (1974, Burgos, Espanha), Jaider Esbell (1979, Normandia, RR), Joan Jonas (1936, Nova York, EUA), León Ferrari (1920-2013, Buenos Aires, Argentina), Neo Muyanga (1979, Joanesburgo, África do Sul), Regina Silveira (1939, Porto Alegre, RS), Ximena Garrido-Lecca (1980, Lima, Peru) e Yuko Mohri (1980, Kanagawa, Japão). Simultaneamente à mostra, trabalhos de Antonio Dias e Joan Jonas também poderão ser vistos no MAM SP e na Estação Pinacoteca, respectivamente, em mostras individuais que integram a rede de parcerias institucionais da 34ª Bienal.

Além disso, até fevereiro de 2021, seis outros artistas agora anunciados integram as ações que dão continuidade à programação digital inédita concebida pela Fundação Bienal após a decisão de adiar para 2021 a mostra principal da 34ª Bienal de São Paulo: Jaune Quick-to-see (1940, Montana, EUA), Lydia Ourahmane (1992, Saïda, Argélia), Naomi Rincon Gallardo (1979, Carolina do Norte, EUA), Sebastián Calfuqueo Aliste (1991, Santiago, Chile), Sung Tieu (1987, Vietnã) e Uýra Sodoma (1991, Santarém, Pará) . A programação e participantes de março a agosto de 2021 serão divulgados oportunamente. Para saber mais sobre essa sobre a programação digital e a exposição Vento, entre na landing pageA Bienal tá on .

Sobre Vento

A exposição, que inaugura a dinâmica de organização das obras ao redor de enunciados (objetos com histórias complexas que sugerem leituras multifacetadas), é intitulada a partir do filme Wind [Vento] (1968), de Joan Jonas. No filme, a artista norte-americana registrou os esforços de um grupo de performers para executar uma coreografia na praia de Long Island, em Nova York, em um dos dias mais frios de 1968. De acordo com Jacopo Crivelli Visconti, curador geral da 34ª Bienal: “O filme não retrata apenas a performance, ele retrata o vento: o papel dos dançarinos, nesse sentido, é tornar o vento visível. Às vezes é preciso colocar algo no vazio para que ele se revele cheio de coisas que não podemos tocar ou ver. Já havíamos decidido exibir esta obra na exposição coletiva da 34ª Bienal (e ela poderá ser vista novamente pelo público no ano que vem), mas agora, no contexto em que vivemos, ela ganhou muitas novas camadas de leitura e interpretação possíveis”.

Um dos aspectos mais marcantes desta exposição é a sua montagem: para a mostra, ao contrário do habitual, não será construída nenhuma parede expositiva, e a arquitetura do Pavilhão Ciccillo Matarazzo ficará em seu estado natural, acolhendo as obras diretamente, sem elementos que possam criar uma mediação entre a escala humana dos trabalhos e as dimensões monumentais do Pavilhão. Ao incluir, em grande parte, obras desmaterializadas (em áudio ou vídeo), a exposição busca ressaltar uma sensação de espaço e distância que raramente pode ser experimentada pelo público nas exposições e eventos realizados no edifício.

O formato dialoga com o momento atual tanto por ter sido concebido como uma maneira de facilitar o distanciamento social quanto por suas motivações conceituais: “a distância entre os trabalhos convida o público a olhar não apenas para as obras, mas também para o espaço entre elas, e a ler nesse gesto uma ressonância poética da necessidade de se afastar dos outros e do mundo. Ao mesmo tempo, confiar que poucas obras irão preencher um espaço tão grande é apostar na capacidade da arte de reverberar infinitamente, o que a torna uma ferramenta insubstituível para enfrentar e superar momentos sombrios como os que vivemos”, explica Crivelli Visconti.

A relação entre visto e não visto, material e imaterial também se faz presente na apresentação da performance de Paulo Nazareth [A] LA FLEUR DE LA PEAU [[A] A FLOR DA PELE] (2020), inédita no Brasil. Como forma de marcar a abertura da exposição sem, no entanto, gerar aglomerações, a performance será realizada no Pavilhão fechado no dia 13 (sexta), às 18h, e transmitida ao vivo pelo Instagram da Fundação Bienal. Na obra, pessoas não brancas perfuram um saco de farinha de trigo e reorganizam o pó branco na forma de círculos pela varredura, problematizando, de forma simbólica, relações coloniais de poder, tanto pelos gestos e corpos em cena quanto pela alusão aos diversos significados e usos atribuídos ao círculo (e à geometria) por diferentes sistemas de conhecimento, ocidentais e orientais. A partir do dia seguinte, o público poderá ver, no espaço, o resíduo da ação dos performers, que se transformará ao longo do período expositivo pela ação das correntes de ar do interior do Pavilhão.

Como mencionado acima, outro aspecto a ser ressaltado nesta etapa da Bienal é o fato de que ela inaugura a dinâmica de organização das obras ao redor de enunciados, objetos com histórias complexas que sugerem leituras multifacetadas, a qual será expandida na mostra coletiva de 2021. Em Vento, a curadoria recorre a dois desses enunciados para criar ressonâncias e ecos: o Sino de Ouro Preto (já apresentado na publicação educativa desta edição, Primeiros ensaios ) e os cantos tikmũ’ũn.

Representado na exposição por um vídeo inédito comissionado pela Fundação Bienal, o Sino de Ouro Preto, fundido na Alemanha em 1750, localiza-se no campanário da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, mais conhecida como Capela do Padre Faria, em Ouro Preto (MG). Em 21 de abril de 1792, data da execução de Tiradentes, o principal líder da Inconfidência Mineira, esse sino foi o único da colônia a tocar, em aberta contravenção à ordem oficial que proibia qualquer homenagem ao apontado inimigo da coroa portuguesa. Com a independência do Brasil e a proclamação da República, o mártir mineiro foi declarado herói nacional, e o sino que o homenageou passou a ser considerado um símbolo da luta pela independência, a tal ponto que em 1960, noutro 21 de abril, foi levado a Brasília, içado ao lado da cruz usada na primeira missa no Brasil e tocado na inauguração da nova capital. Em Vento, serão agrupadas ao redor da imagem do sino, e ocasionalmente banhadas por seu som, obras criadas em épocas e lugares distintos que aludem ao retorno, como tragédia ou como farsa, de momentos sombrios e à necessidade de opor a eles, de forma literal ou simbólica, ideias, corpos e cantos.

Em sua primeira aparição no âmbito da 34ª Bienal, gravações de alguns cantos rituais tikmũ’ũn serão incorporadas à exposição para servir de contraponto poético e catalisador simbólico para um conjunto de obras que têm entre seus disparadores uma reflexão sobre a memória. Os Tikmũ’ũn, ou Maxakali, são um povo indígena originário de uma região compreendida entre os atuais estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Após inúmeros episódios de violências e abusos, recorrentes desde a época colonial, os Tikmũ’ũn chegaram a beirar a extinção nos anos 1940 e, forçados a abandonar suas terras ancestrais para sobreviver, estão hoje divididos em aldeias distribuídas no Vale do Mucuri (MG). Os cantos organizam a vida nas aldeias, envolvendo sua rica cosmologia – constituindo quase um índice de todos os elementos que estão presentes em suas vidas, como plantas, animais, lugares e objetos. Grande parte desses cantos é executada coletivamente, e muitas vezes são destinados à cura. O ato de cantar se torna, entre os Tikmũ’ũn, parte integral da vida, porque é por meio do canto que se preservam as memórias e se constitui a comunidade.

34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto

Exposição Vento
14 de novembro a 13 de dezembro de 2020
performance de Paulo Nazareth [A] LA FLEUR DE LA PEAU [[A] A FLOR DA PELE] em 13 de novembro, às 18h, pelo Instagram @bienalsaopaulo
Visitação mediante agendamento (a partir de 11/11/20 pelo site 34.bienal.org.br)
qua, sex, sáb, dom, 11h – 19h; qui, 11h – 20h
*o horário das 11h – 12h tem como público prioritário idosos e pessoas em grupo de risco
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
Entrada gratuita

Exposição Faz escuro mas eu canto
4 de setembro a 5 de dezembro de 2021
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
Entrada gratuita

Equipe curatorial
Curador geral: Jacopo Crivelli Visconti
Curador adjunto: Paulo Miyada
Curadores convidados: Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez
Editora convidada: Elvira Dyangani Ose, em colaboração com The Showroom, London