Educação em Tempos de Ser

Existe uma contracultura em nosso país, em comparar a educação pública com a privada, para estabelecer parâmetros de qualidade, sem conhecer e compreender o universo da escola e todas as vulnerabilidades que se alojam em seu seio. Tenho constatado empiricamente essa realidade, que envolve um perigoso distanciamento de julgo de valor na educação. Pela experiência de já ter atuado em outras redes de Educação e sempre na área pública, convivi com todos os lados que compõem a escola, em especial, com as famílias dos alunos. A sociedade civil ao longo das últimas décadas, está cada vez mais demandando a escola no cuidado com seus filhos e criando uma relação de clientelismo social, fazendo com que a escola assuma tarefas que não são delas. Tanto que se perguntarmos para um professor o que lhe tem aborrecido nos tempos atuais, além de todos os problemas crônicos que um profissional de educação tem que enfrentar no Brasil, ele certamente vai ponderar sobre a relação com os pais dos alunos, que acham que tudo é responsabilidade do professor e da escola, se isentando das suas obrigações e quando não, reforçam comportamentos agressivos em seus filhos deflagrando a falta de respeito, humilhação e covardia com professores e profissionais da escola como um todo.

O Professor Mario Sérgio Cortella, uma das minhas grandes referências do tempo presente, costuma dizer em suas palestras e livros, que estamos a ponto de começar a pensar numa escola para pais.

Outro dia ao conversar com uma diretora de escola pública, ela me relatou um episódio que aconteceu em sua unidade escolar, envolvendo uma boneca virtual chamada “Momo” que, por ação de hackers, aparecia em vídeos infantis disponíveis na internet com mensagens de incentivo ao suicídio e violência. Uma mãe de aluno foi até a escola para reclamar sobre isso, dizendo que a escola tinha que se preparar para esse tipo de perigo e que a sua filha reportou a ela que tinha assistido ao vídeo. A diretora, depois de ouvir a gritaria que fez a mãe da aluna, esperou ela se acalmar e perguntou: “Mas onde a sua filha viu o vídeo?”. Neste momento a aluna chegou perto da mãe e se adiantou ao responder: “Eu vi no celular da mamãe”. A Diretora disse que ficou um silêncio constrangedor na sala, e a mãe da aluna ainda foi embora sem se desculpar com a professora e com ela.

Esse é o retrato do que hoje acontece em boa parte das escolas públicas: pessoas que se acham no direito de achacar professores, gestores ou outros profissionais da escola, apenas pelo fato de justificarem o pagamento de impostos. Sem contar aqueles que, empoderados pelo clientelismo, acham que podem definir o que o professor fala ou faz dentro da sala de aula, com argumentos rasos de doutrinação política. Não podemos permitir. A sala de aula pertence ao professor e seus alunos, sua autonomia deve ser garantida e respeitada. Esse movimento de insanidade social tem crescido de forma perigosa. E isto faz com que a busca pelo fortalecimento de comportamentos respeitosos e harmônicos, o saber viver na diversidade, o vigiar para tolerar e acolher o seu diferente – eixos esses que caracterizam a capacidade de Ser – estejam em extinção e sejam substituídos pelo ódio, intolerância, indiferença e estupidez social.

A educação é a grande provedora de uma cultura de pertencimento, que fortalece a presença do Ser que há em nós, que faz florescer o reconhecimento do outro com um igual pela nossa condição humana. Temos visto acontecimentos trágicos de toda ordem de uma sociedade que não conhece os seus. Filhos matando os pais, pais matando os filhos, crimes cruéis e uma invisibilidade angustiante causadora de grandes sofrimentos para humanidade. Não se pode fingir que nada está acontecendo, mesmo aqueles que estão protegidos por seus altos muros de pedras e com um arsenal de seguranças, nada disso adianta se não conseguirmos um equilíbrio de aceitação no estado de convivência social.

Educação como tempo de Ser, emerge um caráter de recuperação dos afetos. Vivemos um analfabetismo afetivo sem precedentes, com pautas conservadoras e moralistas que, acham que a educação dever ser instrucionista para atender seus interesses. A educação é um processo de libertação, que impõe ao educando um despertar de sonhos, talentos e desejos na arte do encontro consigo mesmo, com os próximos e com os distantes, sendo uma prática de educar que promova a resiliência e a alteridade como condição para toda e qualquer aprendizagem. Uma educação que reconheça a dignidade nas diferenças e que promova o susto do amor.

Na tradição sufi existem incríveis histórias espalhadas em diversas literaturas, no livro O poder da alegria de Frédérich Lenoir, tem uma muito especial para que possamos refletir sobre a condição humana dentro de um processo aprender a ser, a ter e a conviver, pilares sustentadores para uma cultura de pertença e sentido:

Um velho estava sentado na entrada de uma cidade. Um estrangeiro que viera de longe se aproxima dele e pergunta: “Eu não conheço esta cidade. Como são as pessoas que moram aqui? O velho respondeu com uma pergunta: “Como são os moradores da cidade de onde vieste? “Egoístas e malvados”, disse o estranho. “Foi por isso que eu saí de lá.” “Vais encontrar os mesmos aqui”, respondeu o velho e o estrangeiro seguiu caminho. Mais tarde, outro estrangeiro se aproxima se aproxima. “Venho de longe”, disse. “Dize-me, como são as pessoas que moram aqui?” O velho respondeu: “Como são os moradores da cidade de onde vieste?”. “Bons e acolhedores”, disse o estrangeiro. “Eu tinha muitos amigos lá, foi difícil deixá-los.” O velho sorriu e disse: “Vais encontrar os mesmos aqui”. Um vendedor de camelos que tinha acompanhado as duas cenas de longe se aproximou do velho: “Como podes dar a mesma resposta para duas situações completamente diferentes? E o velho respondeu: “Cada qual carrega o seu universo no coração. O olhar que dirigimos ao mundo não é o próprio mundo, é o mundo como nós percebemos. Uma pessoa feliz em um lugar será feliz em toda parte. Uma pessoa infeliz em um lugar será infeliz em toda parte”.

Uma educação para Ser, capaz de revisitarmos o humano que está em nós.  Que é nosso e singular, onde temos controle e gestão plena, basta compreendermos a sua dimensão e como isso impacta na coletividade. Pois não importa o que uma pessoa tem de importância nas rodas sociais e institucionais, se é o mais rico, o mais habilitado, o mais famoso, o mais preparado intelectualmente ou especialista de primeira no que faz, isso não muda o caráter que o Ser tem, pelo contrário, é a capacidade de Ser como movimento de alteridade que potencializa o que fazemos secularmente, pois um coração ingrato e que não suporta o seu diferente vai agir da mesma forma em qualquer condição e em qualquer lugar.

Como transito em função das palestras por lugares e arranjos de poder, me deparo com uma ilusão agressiva e sem sentido de pessoas embebecidas pela arrogância e soberba, ostentadores do que é efêmero e que nada possui de permanência, de presença afetiva, daquela anamnese que nos faz rememorar o Ser que está em nossa história de vida, que nos fortalece apenas em lembrar. Tenho isso até hoje com a minha avó Maria Benedita. Ela já não está mais neste tempo, mas continua presente em meu tempo. Sou agraciado pela memória afetiva que ela me deixou, pelo olhar simples, pelo abraço confortante em tempos de adversidades, pela despretensiosa maneira com que me observava e me acolhia como se abraçasse a minha alma. Isso me faz saber de onde vim, e que não posso ser irresponsável com essas oportunidades que ela me deixou em seu ministério de amor à vida. Todos nós temos nossas imperfeições, e muitas delas certamente nos incomodam demasiadamente. É possível que já magoamos alguém e que também fomos magoadas, que não conseguimos agradar a todos, sendo por causa do nosso jeito de ser, agir ou pensar, entretanto, essa consciência não é confortante, mas nos proporciona sentir a nossa humanidade de um jeito real com todas as fraquezas e insatisfações que encontro em nós. Recorrer ao Ser que há em nós, promove o encontro com pessoas que não desistiram da nossa existência. Eu por exemplo, lá encontro a minha mãe com sua alegria e seu amor ágape, incondicional. Encontro também, além da minha avó, várias pessoas que foram importantes para a construção de um lado que gosto no Fernando e que faz toda diferença para enfrentar os desafios da vida. E também uma disposição incomum, mesmo diante de dias infelizes, em saber que o extraordinário pode me acontecer a qualquer momento. Tempo de Ser para reagir e não esmorecer, com esperança, não a da espera, mas a da ação, de esperançar dias melhores.

E tudo isso achei na educação guarulhense, que me proporcionou unir duas palavras que não costumam andar juntas: orgulho e gratidão. Por isso, preciso manifestar o quanto foi honroso e especial a minha experiência em trabalhar com a rede municipal. Foi uma caminhada que me senti peregrino. Considerando que peregrino é diferente do turista, que está preocupado em registrar os instantes através da fotografia para dizer que lá esteve. O peregrino, enquanto caminha, se preocupa em viver o momento com diligência para observar os aspectos que ninguém dá importância no trajeto, transformando a experiência em algo para a vida toda e que, foto nenhuma vai dizer ou representar. A rede de educação de Guarulhos é forte e historicamente consolidada, com profissionais competentes e comprometidos com seus alunos.

Conheci pessoas incríveis, entre elas: gestores, supervisores, professores, profissionais da alimentação escolar, da manutenção, da limpeza e de todas as áreas que compõe esse universo mágico da escola. Profissionais esses, que potencializam em suas funções uma educação baseada em sentidos, com propósitos e aguerrida na busca de aperfeiçoamento em oferecer o melhor aos seus alunos. Pude experienciar uma comunidade de projetos com profundo avivamento humano. Uma rede que faz acontecer, com abnegação e desejantes de um novo tempo de Ser, comprovando que a educação pública tem muita competência e qualidade.

Fico feliz em ter feito parte desta caminhada, foram 16 meses numa imersão de sentimentos e aprenderes. Agora, sigo outras peregrinações, com mais foco no meu trabalho como escritor, filósofo, professor e palestrante. Com livro novo em produção editorial e outros projetos na literatura e na docência.

Educação pública de Guarulhos, foi um prazer servi-la.

Fernando Moraes é escritor, filósofo, professor e palestrante. Já realizou trabalhos no campo missionário em comunidades pobres, destacando-se a África, especialmente Angola e Moçambique. Participou da elaboração de projetos e programas de desenvolvimento comunitário para o Timor Leste, Paraguai, Venezuela e comunidades sertanejas do Nordeste brasileiro. Já atuou como consultor da OIKOS Portugal – Cooperação e Desenvolvimento em Angola (Luanda e Lubango) no Projeto Jango, nos anos de 2007 e 2008. Foi consultor em organizações humanitárias no Brasil e no exterior; membro e conferencista da Comissão para o Desenvolvimento dos Países da África Austral do Parlamento Europeu – Bruxelas/Bélgica. Foi Secretário de Educação de Hortolândia – SP e Diretor Executivo da Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” – FUNAP / fundação pública do Governo do Estado de São Paulo e foi Secretário Adjunto de Educação da cidade de Guarulhos. É fundador e filósofo da HumanIdeia – Casa de Humanidades.  Fernando Moraes é membro da União Brasileira de Escritores – UBE e já publicou os livros “A Arte de Pertencer”, “Renovo: o poder de se reinventar”, “O Que te Move”, “Um Amor em Movimento”, “Compaixão” e “Protagonismo Feminino – como conceito de totalidade”.www.escritorfernandomoraes.com.br @escritorfernandomoraes (Instagram)