‘É hora de sermos humanos e solidários uns com os outros’

Mayara Nascimento

A chegada do inimigo invisível, como todos tem chamado a covid-19, tem assombrado dia e noite os trabalhadores, não só pelas questões de como fazer home-office, como lidar com filhos em casa, mas a principal preocupação é se as pessoas ainda terão empregos e empresas estarão sãs e salvas até o final da crise.

Especialistas têm divulgado um salto de 12 milhões para 20 milhões de desempregados formais no Brasil. É um cenário assustador, mas realista, e é preciso ter preparo psicológico para o momento, não apenas para ser demitido, mas também para demitir, que é tão desolador quanto ser demitido.

No começo do mês foi publicada a lei que prevê o pagamento de uma renda básica emergencial no valor R$ 600 a trabalhadores informais, autônomos e sem renda fixa, durante a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, para ajudar as famílias com o necessário.

Para falar sobre os possíveis cenários no mercado de trabalho, a Folha Metropolitana conversou com Danielle Lima, especialista em Gestão de Recursos Humanos que atua contribuindo para o desenvolvimento de profissionais individuais, equipes, líderes, empreendedores e apoiando startups na construção de estratégias de RH.

Abaixo os principais pontos desta entrevista que pode ser conferida na íntegra no site www.fmetropolitana.com.br.

Folha Metropolitana – O que fazer após uma demissão?

Danielle Lima – Impossível não ficar abatido, preocupado e a beira de uma crise de nervos, afinal somos humanos e quando nossas necessidades básicas estão em jogo, o bicho pega, e como pega. Permita-se viver o luto de ser demitido, mas isso não pode durar mais que uma semana. Lembre-se quanto mais demorar para você reagir, mais difícil fica para se recuperar. Então, após esse “luto” reaja! Não deixe de buscar emprego, mesmo em meio as incertezas da nossa economia, existem algumas empresas que estão contratando.

Como procurar emprego em meio à crise?

Buscar emprego requer dedicação e organização, reserve um tempo do seu dia para isso. Aproveite para ativar seu networking, faça contatos. Aproveite que está com o tempo mais livre e faça aquela ligação para o amigo que há tempos estava devendo. Conecte-se com recrutadores. As vagas que têm surgido são urgentes e se o recrutador tiver conexão de alguma forma contigo, pode facilitar muito.

Como driblar as diversas distrações dentro de casa na hora de buscar uma recolocação?

Não fique o dia todo só se entretendo na internet. Sim, é gostoso, mas reserve um período do dia para fazer um curso. Várias plataformas on-line bem-conceituadas no mercado têm disponibilizado acesso gratuito durante a pandemia. Muitos livros gratuitos também estão acessíveis, aproveite para ler e se informar.

Enquanto o emprego novo não vem, como lidar com a falta de dinheiro?

Outro ponto importante, revise todas as despesas e contas. Neste momento é importante cortar tudo que é excesso e ficar com o mais relevante. Quanto menor o custo fixo, melhor. Fique atento às medidas que o governo tem anunciado para conter a crise econômica, talvez uma delas pode se encaixar a você.

Do outro lado da moeda estão as empresas que estão fechando e demitindo. Como elas devem agir?

Acompanho alguns empreendedores de perto e o desespero é muito maior, pois além do negócio próprio trazer o sustento para a sua família, leva também o sustento para as famílias de seus funcionários. Por mais difícil que seja, tente ao máximo zelar pelo emprego. Pesquise e converse com seu contador para entender as possibilidades que o governo tem disponibilizado para este período de crise. Antecipar férias? Redução de salário? Pausa no contrato? Estude as alternativas que o governo está oferecendo e não tome decisões precipitadas.

Como aproveitar o momento de portas fechadas a favor do negócio?

Aproveite o período para estudar possibilidades de novos mercados. Assim como os profissionais irão precisar se reinventar, as empresas também passarão por este processo. Existe algum serviço/produto dentro do seu negócio que possa ser oferecido virtualmente? Existe algum novo mercado que possa ser explorado? Estude formas de evoluir seu negócio.

Como avaliar os possíveis cortes?

Avalie cada colaborador com relação ao seu trabalho. Tenha em mente também outros critérios como “mais alguém na família trabalha?”, “O funcionário tem filhos?”. Outra coisa importante a ser avaliada neste momento é se o colaborador tem carteira de trabalho assinada e se ele é elegível ao seguro desemprego. Se tiver opção de escolha, escolha demitir quem tem carteira assinada, afinal essa pessoa terá direito a seguro desemprego pelo governo.

E se o empreendedor não conseguir manter o funcionário mesmo após estudar as alternativas?

Faça uma varredura em todas as despesas fixas da empresa e veja o que é possível cortar ou reduzir. Mas, se mesmo depois de estudar todas as possibilidades para não demitir você não encontrar outra saída, faça a demissão da forma mais humana possível.

Quais são as outras formas de oferecer suporte ao funcionário demitido?

Se você se sentir confortável, ofereça ajuda a pessoa que você está demitindo. Oferecer talvez uma cesta básica por determinado período, ou ajuda para rever suas finanças. É um momento que precisamos estar abertos tanto para ajudar quanto para sermos ajudado. Sejamos solidários ao momento, não é hora de ter crachá! É hora de sermos humanos e solidários uns com os outros.

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