Decifra-me ou te devoro – Roberto Samuel

Proponho um exercício difícil, mas instigante. Defenda os atos cometidos pelo traidor Judas Iscariotes, por Adolf Hitler, por Osama Bin Laden; defenda o sujeito que mais te prejudicou na vida. Agora faça o oposto! Ataque a postura e os ensinamentos de Cristo, de Buda, de Martin Luther King, de Maomé; Pinte com cores fortes os defeitos de quem você mais admira. Isso vai te modificar, permitindo ver, compreender além do que te dizem. Será mais difícil te enganar quando enxergar os dois lados sem a cegueira da paixão.

Por isso, somente depois de enterrados reconhecemos as qualidades, a possível santidade, as virtudes dos heróis e dos santos, os defeitos já são outros 500. Um santo ou um herói vivo quase sempre é um perigo, pois não se enquadra dentro da previsibilidade dos seres comuns. Outro dos motivos talvez seja que ninguém consiga ser unânime no bem; tem sempre alguém maldizendo, colocando defeito ou tentando desclassificar o milagre realizado. É mais simples rotular os maldosos, os demônios. Temos maior facilidade de imputar defeitos do que qualidades; olha eu fazendo exatamente isso! Ainda não admitimos que somos uma mistura do bem e do mal. Somos o resultado parcial da soma de incertezas, erros, acertos; somos uma conta inacabada, uma equação ainda sem solução.

É muito difícil amar o que não se conhece, é mais fácil odiar e temer o desconhecido. Detestar o que nos desagrada, o que nos é distante é tranquilo; o perigo é excitante. Assim rejeitamos o oculto, pois nos assusta, embora somos tentados ao risco de pelo menos comentar, a especular esses assuntos que não dominamos. O conhecido quase sempre é um tédio. Quem odeia o PT, o socialismo não consegue enxergar qualquer ato positivo dos governos Lula e Dilma.  Nem mesmo no mais fundo do seu ser. Fecha-se os olhos de forma obstinada, mesmo que isso seja prejudicial para si e para todos. No fundo é um ato infantil, quase uma birra! Não conheço e não gosto! Difícil admitir a mínima possibilidade de que estamos sendo enganados, que Lúcifer era um anjo de luz. Que escolhemos errado nosso super-herói. Do mesmo modo, procurar algo de bom em Jair Bolsonaro é impensável para alguém de esquerda. Mas e se o Bolsonaro for do bem? E se Deus descesse à Terra e dissesse que Lula é inocente?

Luiz Inácio fez sua cota por esse país. No entanto é muito cedo para quem o teme admitir tal blasfêmia, tal demência. Isso vai ocorrer quando ele não for mais um perigo ao atual espectro político vigente e dominante. Como todo mundo, ele carrega um monte de defeitos juntos com suas virtudes. Tudo que ele construiu, foi suplantado por seus erros e pelos erros de alguns dos seus. O resto foi construído pelo medo, pelo ódio e pelos que enxergam em Luiz Inácio um perigo para seus planos políticos. Feito o roteiro do filme O Sexto Sentido, eu e você somente saberemos a verdade no derradeiro ato do último capítulo dessa novela. Mesmo porque, hoje as respostas vêm todas bem embaladas e prontas para serem consumidas. Pensar cansa demais. Mas se eu deixar a vida me levar, posso chegar onde não quero, pois outros decidirão por mim.

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