Coluna Livre com Hermano Henning

O meu amigo e colega de trabalho na Rede Brasil de TV, Nei Gonçalves Dias, veterano do rádio e televisão, é um especialista em acompanhar o que dizem as cartas dos leitores publicadas pelos jornais. Tanto o Estadão como a Folha de S. Paulo, as publicam nas páginas nobres.

Na verdade, não são cartas. Ninguém mais as escreve hoje em dia. As mensagens de leitores seguem para as redações via e-mails.

O editor escolhe

Logo depois da manchete e chamadas de primeira página, é só abrir o jornal e lá estão elas.

Nei Gonçalves diz que as cartas de leitores dizem muito. E, muitas vezes, dizem mais do que as reportagens. “É um termômetro”, acrescenta.

Acho relativo. Na minha opinião, a sessão “Cartas dos Leitores”, tanto de um como de outro jornal, são mensagens escolhidas por um editor. Ou seja, há alguém por trás delas. E esse alguém seleciona o que interessa publicar.

É curioso notar a diferença de tom das mensagens dos leitores nos dois jornais – continuamos falando da Folha e do Estadão. À grosso modo, o “de esquerda” de um lado e o “de direita” de outro.

O leitor do Estado de São Paulo considera Sergio Moro um herói, o homem que mudou a história do direito penal no Brasil. País no qual cadeia era só para preto, pobre e prostituta. Os três ps.

A Lava Jato conseguiu aquilo que todo brasileiro considera uma conquista histórica: colocar gente poderosa e corrupta na cadeia. Principalmente político.

O leitor da Folha, principalmente aquele que aparece na sessão de cartas, considera Lula preso político. É identificado com os petistas para quem, mesmo condenado por corrupção, Lula sim, é um herói. Vítima das elites.

E Sergio Moro é quem deveria estar preso.

Essa, hoje, é palavra de ordem no Partido dos Trabalhadores. A deputada Gleisi Hoffmann, reeleita presidente da sigla em seu discurso de posse no fim de semana, pediu a prisão do ex-juiz de Curitiba.

A Folha de S. Paulo de vez em quando publica mensagem de leitor elogiando a Lava Jato. Pra justificar talvez a pretensão de ser um órgão democrático e plural. Mas assim como a de seus colunistas, a mensagem predominante é explícita. O jornal briga com o governo e se mostra tão crítico à Lava Jato que, por vezes, dá a impressão de que, assim como nossa esquerda petista, inverte as coisas. O criminoso da história é Sergio Moro. E é ele quem deveria estar preso no lugar de Lula.

Somos poucos os leitores de jornais impressos hoje em dia. Mas segue valendo o conselho: pior do que não ler jornal é ler apenas um.