Cinema: A cineasta guarulhense Janaína Reis participa de bate-papo do Quarentena Incinerante

O livre transitar entre as linguagens do cinema, teatro e fotografia. A trajetória ímpar da cineasta, fotógrafa, clown, atriz, produtora, documentarista e educadora Janaína Reis é o foco do próximo encontro do Quarentena Incinerante que acontece nesta segunda-feira, 27 de julho, às 19h.

O bate-papo é uma iniciativa do Cineclube Incinerante, transmitido via videochamada pelo link: http://bit.ly/IncineranteQuarentena. Para mais informações, acesse o evento no Facebook https://www.facebook.com/events/3075465675878726/.

Em seu percurso, Janaína acumula intensa participação em importantes grupos e coletivos da cidade, como a Cia Los Xerebas, a Cia Bueiro Aberto, a Mostra de Teatro de Rua de Guarulhos, o coletivo Fotógrafas Guarulhenses e o Portal Mídia Remota.

Recentemente, a Cia Bueiro Aberto lançou Cinemargem, uma série de episódios disponíveis no canal do YouTube (https://www.youtube.com/channel/UC7L448UpthdA4x08GJ7tgdw) para compartilhamento de experiências e debates sobre a sétima arte. Janaína participa do episódio com sua filha Julia Oliveira, no qual abordam a construção da personagem, atuação, improvisação, interpretação, com dicas simples e essenciais para atrizes e atores. De acordo com Janaína, a importância do compartilhamento dessas experiências está em abrir espaço para diferentes narrativas e troca de ideias sobre o cinema produzido pelo coletivo.

“A intenção do Cinemargem é abrir um espaço para que as pessoas possam conhecer um pouco sobre as etapas da produção cinematográfica, uma forma da gente refletir e estudar aquilo que a Cia Bueiro Aberto faz. Como produzimos e gravamos com grande intensidade, é importante refletir sobre nossa produção e trajetória, o que fizemos até hoje, o que ainda é possível fazer, onde precisamos melhorar, onde podemos chegar. A ideia é teorizar sobre o cinema que fazemos e mostrar as várias caras do coletivo, que é muito diverso e composto por pessoas com pontos de vista diferentes, dispostas ao debate produtivo e ao compartilhamento de ideias”.

A educadora, a cineasta, a documentarista, a atriz

Janaína Reis é Pedagoga e professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede pública de Itaquaquecetuba. No exercício da profissão docente, ela observa a desigualdade social como um dos grandes desafios e entraves para a Educação no país.

“A Educação sempre foi um distintivo de classe e todas as desigualdades e tensões sociais vão desembocar na escola. Isso acaba exigindo que o professor lance mão de várias estratégias para poder fazer seu trabalho, considerando que a escola vai muito além dos conteúdos. Com isso, o professor sofre pressão de todos os lados: dos sistemas de ensino, das políticas educacionais, das famílias, da academia. Tanto os alunos quanto os professores, que são os principais atores dessa relação educacional, nunca são ouvidos. Muito se fala deles, do que devem fazer,  mas ninguém se detém para escutar, honestamente, o que eles têm a dizer sobre a educação e os caminhos que ela está trilhando”, pontua a educadora.

Para superar essas questões, Janaína faz o que tantos outros professores dos sistemas públicos de ensino do país têm feito para não se deixar abater pelas dificuldades e desafios: “É preciso driblá-los o máximo possível, mesmo diante de um sentimento de que se está sozinho, de que a ajuda é pouca, é necessário encontrar uma forma de se defender. Procuro sempre manter minha esperança lá em cima, estabelecendo diálogo com os alunos e tentando fazer tudo do modo mais democrático possível, porque é assim que podemos exercer a nossa cidadania”, observa Janaína ao enfatizar a urgência de valorização da escola pública.

No trabalho da Janaína documentarista, chama atenção um modo muito particular ao criar narrativas. Doc. Solidão (https://www.youtube.com/watch?v=PdKCbDl7kwk&t=826s), seu primeiro documentário,  extrapola os limites desse gênero com a ficção, revelando muito mais que um olhar especial e diferenciado, antes, um método de observação. “Nesses trabalhos, eu bebi e bebo no Neorrealismo italiano, no Cinema Novo, no filme Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, uma das principais referências para Doc. Solidão, principalmente quando ele brinca com essa coisa de ficção e realidade. Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, foi outra grande referência, pois também usa esse método. Acredito que a gente acaba sendo resultado de todas essas referências, das histórias dos filmes que a gente viu”.

Janaína conta que seu processo de formação também teve grande repercussão em seu modo de olhar para as histórias: “Quando eu estava fazendo o curso de formação cinematográfica, eu ouvia o Francisco Elinaldo, professor de História do Cinema da Unicamp, falar de sua pesquisa-ensaio sobre filmes que estão no limite entre a ficção e o documentário, e isso despertou meu interesse”, lembra.

Outro aspecto interessante do trabalho de Janaína é sua relação com a Cultura Popular, que segundo ela, vem de sua infância, sobretudo do lado materno, que fez com que ela convivesse  intensamente com tais manifestações: “Festas do Divino, rezas, congada, Moçambique, catira, viola, tradições da cultura popular preciosas e autênticas, que nascem do seio do povo, isso me acompanhou a vida inteira, esse desejo de conhecer e estar próximo dessas manifestações”.

Para Janaína, tudo isso a motivou em direção à pesquisa do Teatro Popular e do Teatro de Rua, e sua relação com a poesia de cunho popular: “Acredito que o nosso cinema também busca uma identidade mais popular, algo que vem do povo, contrário a diversas manifestações culturais que nos bombardeiam e que nem sempre tem uma relação direta com o que somos. Esse entendimento e o modo como traduzimos isso em arte fala muito sobre nós, nossa identidade, nossa relação com o mundo, a nossa cultura”.

O entendimento de sua identidade cultural permitiu que a Janaína clown tivesse a oportunidade de olhar para vários tipos de palhaços, que surgem em contextos cinematográficos e também televisivos: “Esse é o caso de Charles Chaplin, mas também dos palhaços do circo, da rua, da Folia de Reis, fui olhar para todos esses lugares para poder construir a personagem a partir de uma pegada popular, de estar com as pessoas, de alimentar essa relação de proximidade com o outro”.

Para além dessas manifestações culturais que invadem o modo de fazer de Janaína, ela destaca ainda seu próprio modo de vida como diferencial que resulta em determinado tipo de trabalho: “A coisa em família, que tem sempre um chá ou remédio caseiro para isso ou aquilo, um jeito de cultivar uma planta ou horta, de proteger esse plantio naturalmente, sem pesticidas ou agrotóxicos, de reunir toda a família para fazer a pamonha artesanal, tudo isso faz parte do nosso modo de vida familiar e sempre procuramos manter essas tradições”.

Nesse universo de tradições e costumes que passam de geração a geração, encontramos a Janaína mãe da Julia Oliveira, uma jovem de 14 anos, estudante do 9° ano do Ensino Fundamental. Nesse período de quarentena, em que mãe e filha tiveram a oportunidade de passar mais tempo juntas, Julia ajudou Janaína na elaboração de Minha Vida em Quarentena (https://www.youtube.com/watch?v=2thHTCtqrEc), curta-metragem participante do Quarentena Online Film Festival, que obedeceu todas as regras de distanciamento social em sua produção.

No recém lançado projeto Cinemargem, Janaína e Julia apresentam episódio sobre A atuação no Cinema, disponível no canal do YouTube da Cia Bueiro Aberto, e Direção, que ainda será lançado. “Julia está vivenciando a coisa do cinema durante a pandemia, ajudando a mãe a gravar vídeos e entrevistas. Em contrapartida, tenho ensinado tudo o que sei para ela, criando uma relação bastante gostosa entre mãe e filha, uma forma de aprendizagem na prática, como as coisas tem que realmente ser”.

Cinema

Minha Vida em Quarentena – Direção e roteiro (2020)

Para Miguel com amor – Preparação de elenco e direção de arte (2019)

Nós das Ruas (2019) – dirigido em conjunto com Angélica Silva e Renato Queiroz

Palavras Deste Chão – Direção e roteiro (2019)

Olha o Teatro no Meio da Rua – Direção e roteiro (2019)

Série Netfake – atuação e preparação de elenco ( 2019)

Matuto Metropolitano – Direção e roteiro (2018)

Crise – Maquiagem  (2017)

Amor bandido – Preparação de elenco (2017)

Mas Ele Nunca Me Bateu – Direção e roteiro  (2017)

Solidão SP dirigido em conjunto com Daniel Neves (2017)

Doc. Solidão – Direção (2017)

Entre máscaras – Atuação e direção de arte (2015)

Traição – dirigido em conjunto com Wesley Gabriel (2015)

“Xerebas.DOC” documentário de longa metragem – Direção (2015)

Fotografia

Anuário Fotógrafas Guarulhenses (2020)

Exposição Universo Feminino (2019)

Anuário Fotógrafas Guarulhenses  (2019)

Primeira exposição Fotógrafas Guarulhenses (2018)

IV BIG – Bienal Internacional  de Guarulhos do pequeno formato (2018)

Teatro

Poesia no Centro – Intervenções clown (2019)

Arraial Arte na Rua – Intervenções  clown (2017, 2018 e 2019)

CabareX – Mestre de Cerimônias (2018)

“Os três porquinhos, o lobo e o lixo” – Atriz (2015)

“Trilogia Xerebística” três adaptações de comédias clássicas, “As Aves – Aristófanes, A Farsa de Inês Pereira – Gil Vicente e As Casadas Solteiras – Martins Pena” – Direção e atriz (2015). Projeto contemplado pela lei de Fomento ao Teatro e à Dança da Cidade de Guarulhos.

“Auto de Natal Brasileiro” – Atriz. Texto e direção de Calixto de Inhamuns (2014)

“Palhaços em Apuros”  Espetáculo de improvisação. Clown (2014)

“A Grande Aventura de Nariguda” – Direção e produção (2014)

“EitaPomba!” – Clown (2014)

Festival Coletivo Lona Cultural – Direção artística (2014)

“Issélixo?” – Clown (2013)

Arte na Feira – Intervenções Clown (2013). Projeto contemplado pelo Funcultura. 

“O Espalha Lixo” – Clown (2011-2012).

 “O Mambembe” – Artur Azevedo – Atriz. Direção: Beto Marcondes (2011)

“Circo_Los Xerebas” – Atriz.  Premiado no  Encontro de Teatro da Cidade de Guarulhos (ETC) (2010)

“Improvisauto de Natal” – Clown (2010)

A Falecida – Nelson Rodrigues – Atriz. Direção Flávia Paiva (2007)

Fotos Claquete e Cia los Xerebas: Rafel Vieira

Fotos Janaína e Julia, Doc. Solidão e Minha Vida em Quarentena: reprodução do YouTube