Causos e Causas: Quando se passa do ponto

Uma reportagem da Revista Época, realizada pelo jornalista João Saconi, que sem pudor invadiu a vida privada da nora do Presidente da República, Heloisa Wolf Bolsonaro, mulher de Eduardo (03), nos traz o pior exemplo do que poderia fazer com a liberdade de expressão, tornando público particularidades das sessões online que a psicóloga orienta em seu curso de “coaching”, matéria que obviamente foge do interesse do cidadão comum porque em nada se relaciona com a vida pública de seu marido ou sogro, portanto, que não deveria servir de especulação para o jornalismo.

O jovem Saconi se perdeu no entusiasmo de atacar a figura pública dos Bolsonaros, se perdeu no desvio ético de não informar que era jornalista e que estaria gravando o curso. Saconi se perdeu num trabalho simples, como deve ser jornalismo, verdadeiro, que deve ser desenvolvido com propósito tornar público informações que realmente interessem à democracia, que contribuam para a cidadania, não questões de cunho privado como o trabalho retratado na matéria, que desdenha da profissional apenas pelo fato dela pertencer à família presidencial, sugerindo que o aumento no preço do curso após seu casamento decorre do nome e não de suas qualidades.

A repercussão negativa da matéria publicada no dia 13 deste mês motivou o Conselho Editorial do Grupo Globo, responsável pela revista, a apresentar desculpas públicas, no dia 16, então considerando que o erro fora pensar em Heloisa como figura pública, que certamente não é, tamanha a sua discrição no noticiário nacional e na vida da família Bolsonaro, parecendo-me que a “desculpa” está mais para uma pré-defesa processual do que propriamente para o reconhecimento de culpa, eis que inegável o ataque à honra da profissional em seu trabalho.

O simples fato da pessoa estar investida na função pública não torna legítimo a imprensa explorar matérias contra seus parentes e amigos, notadamente quando entre eles não houver qualquer envolvimento as custas do poder público, quando a relação for unicamente de parentesco ou amizade; aliás, figura pública que desaparece quando pratica os atos da vida privada fazendo ressurgir o cidadão comum, este com todos os direitos que a ordem constitucional lhe assegura e que devem ser respeitados porque garantia inalienável de sua personalidade.

Se por um lado a democracia impõe a ampla liberdade de imprensa e opinião para que as questões de interesse público sejam conhecidas e debatidas pela população, igualmente se impõe à imprensa trabalhar suas informações com total respeito às demais liberdades e garantias consagradas pela carta constitucional, como a honra, a imagem e a personalidade, assim exigindo que sopesem o exercício destes direitos, que não se excluem, pois, tão necessária quanto a liberdade de imprensa é a inviolabilidade da intimidade, da vida privada de qualquer cidadão.

Não se pode passar do ponto, não se pode atingir a honra alheia sob os pretextos da liberdade de expressão, principalmente para fazer política, situações em que a mídia revela um lado, perde a credibilidade, faz da crítica um mero panfleto partidário.

É necessário respeito.