Causos e Causas com Alexandre Cadeu: Censura e retrocessos

Mantendo uma postura legalista, já de algum tempo venho me posicionando contra atos de censura à imprensa e à liberdade de manifestação, aqui se entenda e inclua a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, como preceitua a Constituição Federal em seu artigo (art. 5º, IV e IX).

Pois bem, não bastasse na semana passada o digníssimo Presidente da República declarar que os jornalistas são uma “espécie em extinção e que deveriam ficar sob os cuidados do Ibama”, agora somos surpreendidos por uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que determina que o especial de natal do Porta dos Fundos, veiculado pela Netflix, fosse retirado do ar, cuja decisão do Desembargador Benedicto Abicair tem por fundamento promover a pacificação de ânimos (sic!!!). Ora, como se estivéssemos à beira de uma guerra religiosa ou como se não vivêssemos em um país laico, ou seja, em um Estado em que o indivíduo é livre para professar sua fé da maneira que escolher, inclusive, podendo escolher não ter religião alguma.

Aliás, não estou aqui defendendo o humorístico “Porta dos Fundos”, longe disso, até porque o acho forçado e agressivo. Essa é minha opinião e, por isso mesmo, entendo que basta não assisti-lo, não divulga-lo, contudo, a manifestação de pensamento nele intrínseca deve ser respeitada em razão da liberdade de expressão que detém, liberdade esta que dá sentido aos valores religiosos em disputa, qual seja de sequer acreditar em qualquer religião, dentre as quais no cristianismo.

E ainda que se entenda que a piada (de mal gosto) de sugerir um Jesus homossexual desagrade parte das comunidades religiosas, causando angustia moral, ainda assim, referido programa deveria ser tolerado em respeito às liberdades de manifestação e religiosa, não se podendo censura-lo ainda que grande parte da população do mesmo não goste ou tenha com ele se ofendido, pois, é um direito fundamental da sociedade brasileira o acesso à informação com as suas mais variadas visões de mundo, notadamente quando se confrontam e permitem o debate popular.

É preciso ter consciência que o mesmo direito de falarmos e defendermos posturas, muitas vezes desagradando a muitos, é o mesmo direito que outros possuem de nos desagradar com suas manifestações, ou seja, este é o preço que se paga pela liberdade de expressão, de ver e ouvir o que muitas vezes não gostamos, cuja contrariedade decorre das múltiplas visões do mundo.

Contudo, o que chama a atenção no presente episódio é o fato do humorístico “Porta dos Fundos” já ter satirizado Jesus anteriormente, o qual foi apresentado bêbado, mas sem que se percebesse uma reação social (e jurídica) como agora presenciada, me parecendo bastante preconceituosa nossa sociedade, que aceita um Jesus bêbado, mas não gay, como afirmou o humorista Marcius Melhem em entrevista ao “O Globo” de 25/12/2019, o que me faz crer que realmente vivemos em tempos de censura e de retrocessos diante de tantos ataques às liberdades individuais.

Tempos difíceis!!! Basta não acessar o programa ou mudar de canal.