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O número de profissionais que vivem no Brasil, mas trabalham para o exterior aumentou 491% entre 2020 e 2022, conforme pesquisa exclusiva da Husky, plataforma que facilita o recebimento de transferências internacionais.

Os brasileiros da área de tecnologia da informação são os mais requisitados pelas empresas estrangeiras, mas profissionais de outras áreas também passaram a ser procurados para esse modelo, como designers, influenciadores digitais, e streamers.

Conforme a pesquisa, em março de 2020, no início da pandemia, havia 1.251 usuários da Husky. No fim de novembro de 2022, eram 11.284. O total de profissionais que trabalham do Brasil para empresas do exterior pode ser maior, pois nem todos usam a plataforma que fez a pesquisa.

Para especialistas, o movimento reflete a consolidação do home office e a mudanças nas leis trabalhistas, como as que permitiram o trabalho híbrido.

Algumas empresas dispõem alternativas no momento da admissão, como a startup brasileira Mesa. No contrato da empresa, o profissional pode escolher se prefere remoto, híbrido ou presencial. “Temos colaboradores espalhados pelo Brasil inteiro e até em outros países. No nosso caso, a opção do remoto é de suma importância”, afirma Larysse Gurgel, responsável pela gestão de pessoas da empresa.

Segundo Maurício Carvalho, CTO da Husky, a permanência do trabalho remoto após a pandemia também é motivada pela flexibilidade desse modelo. “Isso tem a ver com estilo vida e virou um fator determinante para um funcionário continuar na empresa”, afirma.

A área de tecnologia da informação, segundo a pesquisa, é a mais atrativa para posições no exterior. Dentro do segmento, os desenvolvedores de software são os mais procurados. Eles representam 84% da busca.

Johnathan Alves, 28, é engenheiro de software sênior de uma empresa americana remota, sem espaço físico desde que foi fundada. Antes do atual emprego, ele trabalhou remotamente para outras duas empresas estrangeiras.

A primeira experiência foi em 2020, em uma consultoria dos Estados Unidos. Passados dois meses, decidiu pedir demissão por não ter se adaptado. Em menos de um ano, conseguiu ser selecionado em uma startup de Malta. No momento da contratação, o empregador sinalizou que, após a melhora da pandemia, seria necessário migrar para o modelo presencial. “Mas depois de dez meses na empresa disse que não fazia sentido ir para a Europa”, relembra. O chefe aceitou o pedido.

Há cinco anos, a advogada Caroline Florian, por exemplo, trabalha no setor de atendimento ao cliente de uma companhia americana responsável por um aplicativo de gerenciamento de tarefas. Ela decidiu encarar uma vaga remota no exterior por conta da sobrecarga do antigo trabalho. “Pensei no meu futuro. Claro, foi um ajuste na minha rotina, mas não penso em voltar. Eu ganhei tempo para mim”, comenta.

Sem amparo da CLT

Em comum, além de adotarem o conceito home office, Johnathan e Caroline seguem a mesma modalidade trabalhista: pessoa jurídica (PJ). Neste caso, eles não possuem os direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como 13º, rescisão e outras regras da norma brasileira. Na prática, cada empresa estrangeira pode ter uma política específica. Isso significa que a legislação pode se diferenciar conforme o país de interesse e a cultura da companhia.

Segundo a advogada atuante em Direito do Trabalho Maria Laura Alves, de acordo com as leis do País, uma empresa estrangeira precisa ter uma parte do capital brasileiro para contratar um profissional por meio da CLT. Quando isso não é possível, o ideal é “escolher a lei mais benéfica para o trabalhador”. No entanto, faltam leis que tipifiquem a modalidade. Assim como os PJs que prestam serviço no Brasil, Caroline e Johnathan emitem notas fiscais mensalmente para receber o salário. Ambos pagam impostos e serviço de contabilidade.

Mas, antes de assinar um contrato, a advogada sugere que o profissional leia de forma minuciosa os tópicos do documento para evitar irregularidades. Ainda assim, há brechas que podem criar conflito entre as funções da modalidade PJ e da CLT.

“Essa é a grande discussão da Justiça do Trabalho”, diz Alves. A questão da transparência nas contratações é algo defendido por Nina da Hora, cientista da comunicação e diretora do Instituto Da Hora. Ela enfatiza ser necessário “discutir a importância da regulamentação na área”.

Os bastidores do ‘boom’ de contratações

Especialistas têm analisado essa tendência de trabalhar remotamente do Brasil para o exterior, que não é inédita, mas foi acelerada, entre outros fatores, pela pandemia. Para Nina da Hora, a desvalorização do real nos últimos anos diminuiu o custo da mão de obra. “Ficou barato para as empresas estrangeiras, mas essas contratações não garantem direitos”, critica a cientista.

Guilherme Massa, cofundador da Liga Ventures, diz que o “apagão” da mão de obra gerou uma reordenação do mercado de profissionais da tecnologia. Com isso, os trabalhadores começaram a observar outros setores para além da área de TI, como saúde, agronegócio e bancos, cujos espaços estão implementando produtos nativos digitais. “Isso faz parte do início da virada tecnológica, que fez disparar a demanda por talentos”, complementa.

Sobre as recentes ondas de demissões anunciadas pelos titãs da tecnologia, a exemplo da Microsoft, alguns especialistas explicam que isso não implica no crescimento de ocupações remotas da área. Isso porque o movimento está inserido em um cenário de recessão global.

Segundo Leo Rapini, CTO da B.NOUS, enquanto há uma “redução dos investimentos que vale para toda a indústria”, profissionais qualificados estão mais flexíveis para o novo modelo de mercado

Prestes a completar um ano na startup americana, o engenheiro de software Johnathan Alves descarta a possibilidade de emprego presencial, já que não planeja sair de São Paulo. “Eu me vejo, no máximo, em um emprego híbrido”, diz.

Ele apostou em estratégias recomendadas por especialistas e em táticas que aprendeu a partir das experiências pessoais para alcançar um currículo que soma três passagens por empresas estrangeiras durante o período da pandemia. A principal, segundo o desenvolvedor, é o idioma. Ele fez curso de inglês por quatro anos e treinou a conversação antes das entrevistas. Hoje, busca aperfeiçoar a comunicação escrita, formato em que mais interage com a equipe.

Outro recurso utilizado pelo profissional foi o serviço de assinatura LinkedIn Premium, rede em que pesquisava vagas, trocava ideia com desenvolvedores e enviava currículos.

“Eu costumava mandar mensagem e o currículo diretamente para quem publicou a vaga”, explica. Esse método aumentava a chance de ser visto pelo recrutador. Para além dessas sugestões, especialistas trazem orientações para pessoas que desejam seguir carreira no home office sem as atividades tradicionais do modelo presencial, como networking, encontros e espaço físico. Confira algumas delas:

Turbine seu perfil nas plataformas de emprego

Ter um perfil atualizado é crucial para atrair recrutadores. Um bom começo é apresentar uma foto de qualidade. Karuna Lopes, Head de Comunicação do LinkedIn para América Latina e Ibéria, lista três dicas indispensáveis para entrar no foco das empresas estrangeiras: um perfil completo na plataforma, destacando ter conhecimento no idioma do país alvo, filtrar as buscas por vagas remotas nas empresas de interesse, além de atualizar a lista de habilidades.

Esta última sugestão, em específico, é importante para potencializar a carreira internacional. Karuna indica que as softs skills, como inteligência emocional, comunicação e resiliência, devem ser exercitadas.

“Essas competências podem ser adicionadas no perfil dos usuários, mas também podem ser destacadas por meio da produção de conteúdo. Isso ajuda as empresas a verem além das habilidades técnicas, o que pode ser decisivo na busca por uma posição em outro país”, reforça.

Invista no idioma

Trabalhar remotamente para empresas estrangeiras exige que o profissional saiba previamente o idioma nativo do país. Para encarar reuniões, se fazer entender, apresentar conhecimento gramatical e desenvolver relatórios satisfatórios, o caminho é exercitar a escrita, sugere Juliana Rosa, executiva de vendas e consultora de intercâmbio da Ebony English.

Entre as ferramentas disponíveis para facilitar a comunicação estão “ouvir e assistir telejornais com legenda na mesma língua falada, escutar e transcrever podcasts, além de acompanhar rádios locais [buscar sites das emissoras na internet]”, recomenda.

Juliana ainda sinaliza ser necessário perder a vergonha de falar em público para ganhar segurança. “É importante para qualquer pessoa que esteja aprendendo uma segunda língua entender que a comunicação vai oscilar até que ela pegue prática”, reforça.

Pesquise sobre a empresa

Para atrair atenção de recrutadores, é indispensável estar alinhado com a cultura da empresa, afirma Daniela Tessler, sócia da Odgers Berndtson. Ela diz que é preciso ter cuidado com o que é publicado nas redes. Durante a etapa de pesquisa, Daniela orienta que vale a pena fazer uma busca no site do governo do país desejado e se inspirar em histórias reais. Conhecer a política da companhia mais a fundo também pode ser uma ferramenta para auxiliar o conteúdo da Carta de Apresentação.

Conseguiu uma posição no exterior? Agora é hora de trabalhar a produtividade

Apesar de praticar o modelo remoto, o engenheiro de software Johnathan Alves alerta que o home office pode diminuir a produtividade em alguns casos.

“Tem que praticar o foco, porque fica difícil separar quando é trabalho e quando não é”, salienta.

Ele aponta três fatores que o auxiliam na garantia da concentração durante o dia: disposição de bons equipamentos, escritório confortável, ambiente silencioso e sem distrações. “No remoto o seu trabalho vai falar por você”, resume.

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