Não podemos nos acostumar às tragédias

Não podemos nos acostumar às tragédias

Não me lembro de começar um ano com tantas desgraças acontecendo pelo Brasil a fora. Não se trata dos inevitáveis confrontos entre policiais e marginais ou de chacinas de justiceiros e milicianos com os quais nos acostumamos, cujos fatos noticiados atingem de morte a própria sociedade, que incrédula e impotente diante de um Estado omisso passou enfrentar com naturalidade as chacinas do cotidiano.

Estamos assistindo de forma passiva aumentar o número das vítimas de feminicídio, e já chegamos a triste marca de mais de 200 crimes consumados somente neste início de ano que nem chegou à metade do terceiro mês. Há algo muito errado acontecendo com o brasileiro que antes avesso à violência agora encontra justificativas para este tipo de crime, como se a punição à mulher resolvesse uma relação destruída pelos ciúmes, pelo machismo ou seja lá pelo que for, agindo com desprezo a vida humana, como se a brutalidade fizesse parte da programação do noticiário. 

E quando ainda pensávamos em superar a tragédia de Brumadinho, cujo rompimento da barragem devastou muito além da cidade e daquela região mineira, provocando a morte de mais de 200 pessoas com outras 110 desaparecidas, números aproximados, onde a perda ambiental e a morte de animais domésticos e silvestres são inestimáveis, eis que somos surpreendidos por nova tragédia, agora vitimando pessoas que deveriam estar protegidas pelo Estado, dentro de uma escola pública, local onde tudo o que não se poderia esperar era justamente o ataque criminoso de psicopatas.

Estamos vivendo um triste momento de cultura à violência, cujo apego ao revide de qualquer embate ou suposta ameaça parece necessário para a sociedade atual, onde a tragédia em si e suas marcas deixam de ser importantes para justificar uma simples promessa de campanha eleitoral, como se é percebido e lamentado pelas afirmações de um senador da República, no caso o Major Olímpio (PSL-SP) que ousou dizer que “se os professores estivessem armados, e se os serventes estivessem armados, essa tragédia de Suzano teria sido evitada…”.

Ora, professores e serventes não são pagos para duelar e, no caso, a simples presença de seguranças na escola e, fora dela, uma atuação policial mais efetiva, com rondas próprias e qualificadas, ao menos inibiria ações deste tipo.

Não sabemos o que levou dois jovens, um de 17 e outro de 25 anos, ex-alunos daquela escola estadual de Suzano, a cometer tão horroroso ato de repulsa social, cuja ação resultou na morte, além deles dois, de 8 pessoas escolhidas à esmo, sem motivação alguma, ocasião em que qualquer pessoa poderia ser morta, qualquer um de nós, bastando apenas que estivesse naquele local, naquele momento.

Verdade seja dita: é tempo de repensar valores e princípios morais e religiosos, é tempo de reeducar toda uma geração que se desapegou da própria humanidade, é tempo de exigir um Estado de Direito que efetivamente garanta a vida em sociedade.

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